O cartaz na parede e o que acontece no café
Toda empresa tem valores estampados em murais inspiradores: ética, inovação, respeito, colaboração. Mas basta acompanhar uma reunião tensa ou um e-mail atravessado para perceber se a cultura é de verdade ou apenas decoração corporativa.
Cultura não é o que a empresa diz que é. Cultura é o que as pessoas fazem quando ninguém está olhando.
Do discurso à vivência
A maioria das organizações não tem uma cultura fraca, tem uma cultura incoerente. O problema não é declarar valores bonitos, é sustentá-los quando o contexto exige o oposto. Respeito é fácil até alguém discordar de você. Inovação é legal até custar mais caro. Ética é linda até o bônus entrar na conta.
A PwC Global Culture Survey 2021 mostrou que 73% da alta liderança acredita que a liderança pratica o que prega, contra 46% dos demais colaboradores. A diferença entre discurso e prática é o abismo onde se perde a confiança.
Cultura é o jeito invisível que as coisas são feitas
Ela mora nas piadas do corredor, nas decisões silenciosas, na forma como o gestor reage ao erro. É o que orienta o comportamento sem precisar de manual.
E o curioso é que ela é, ao mesmo tempo, invisível e extremamente concreta. Não dá pra tocá-la, mas dá pra senti-la, especialmente quando não está indo bem.
A manutenção da cultura
Cultura é como um jardim: se não for cuidada, cresce mato. Ela exige atenção constante, especialmente dos líderes, que são os jardineiros morais da organização.
O professor Edgar Schein, do MIT, referência em cultura organizacional, defende que liderança e cultura são dois lados da mesma moeda: os líderes criam a cultura, e a cultura molda os líderes. Ou seja, se o exemplo do topo é duvidoso, não há campanha de endomarketing que salve o chão.
Prática é o novo discurso
Mais do que slogans, as pessoas querem coerência. Querem ver líderes pedindo desculpas, diretoria ouvindo o time e decisões refletindo os tais “valores institucionais”.
Cultura forte é aquela em que as palavras batem com os gestos. Onde o propósito não é um slide, é uma prática diária.
E no fim das contas, não é preciso escrever “respeito” na parede: basta praticá-lo na reunião.
João ToledoPsicanalista e mentor. Quem sou