O paradoxo do engajado cansado
O burnout não atinge só quem odeia o trabalho. Pelo contrário: ele costuma escolher os mais dedicados, os apaixonados, os que acreditam tanto no propósito que esquecem de si. É o colapso dos que “dão tudo de si”, literalmente.
A Organização Mundial da Saúde descreve o burnout como um fenômeno ocupacional, uma síndrome resultante de estresse crônico no trabalho que não foi bem administrado (OMS, 2019). Mas, na prática, ele é mais do que um diagnóstico: é um sintoma social. É o resultado de uma cultura que confunde sentido com sacrifício.
Quando o propósito vira prisão
A busca por propósito virou um novo dogma corporativo. Frases como “encontre o que ama e nunca mais precisará trabalhar” se espalharam, e causaram o efeito oposto: gente se cobrando por amar o que exaure.
O filósofo Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço, descreve bem essa era: a exaustão da positividade, em que a cobrança vem de dentro. Não há mais chefes gritando: há vozes internas dizendo “você pode mais”.
O antídoto é o equilíbrio (e não o retiro espiritual)
Cuidar da mente não é fugir do trabalho, é ressignificar o ritmo. O equilíbrio não está em abandonar o propósito, mas em administrar a energia emocional com a mesma disciplina que se administra o tempo.
Descansar é parte da estratégia, não desvio dela.
Redescobrir o propósito com leveza
Propósito não é uma frase na parede, é um estado de coerência. Ele se perde quando viramos reféns do fazer e esquecemos o porquê. E se reencontra quando entendemos que ser produtivo e ser saudável não são opostos: são partes da mesma inteligência.
O equilíbrio possível nasce quando o propósito deixa de ser peso e volta a ser impulso. E, talvez, essa seja a forma mais humana, e sustentável, de continuar brilhando sem se queimar.
João ToledoPsicanalista e mentor. Quem sou