O fantasma que bate ponto
Ele chega no horário, responde e-mails, participa das reuniões. Mas a mente está longe, talvez no pensamento sobre demissão, no scroll infinito do celular, ou no piloto automático que disfarça o cansaço. Esse é o retrato do presenteísmo, o fenômeno do colaborador que está fisicamente presente, mas emocionalmente ausente.
A Harvard Business Review já registrava, em 2004, que o presenteísmo custa às empresas americanas mais de 150 bilhões de dólares por ano, muito mais do que o absenteísmo, segundo algumas estimativas (Hemp, 2004). Em outras palavras: o custo de quem está presente sem estar inteiro pode superar o de quem falta.
O esgotamento travestido de comprometimento
A cultura da performance ininterrupta fez muitos confundirem dedicação com autoabandono. O profissional que nunca tira férias é exaltado, até quebrar. E o líder que nunca desliga é admirado, até adoecer.
A psicóloga Christina Maslach, referência mundial no estudo do burnout, descreve o esgotamento como um desajuste prolongado entre a pessoa e o trabalho. Quando o sentido se esvai, o corpo continua operando, mas a alma já pediu demissão.
O custo da desconexão silenciosa
O presenteísmo é traiçoeiro porque é silencioso. Não há atestado, nem falta registrada. Há uma erosão diária da motivação. E ela não se resolve com happy hour.
Segundo o Gallup, apenas 21% dos profissionais no mundo estavam engajados com o trabalho em 2024 (Gallup, 2025). Isso significa que quase 8 em cada 10 estão no modo “cumprir tabela”, e esse número deveria acender mais alertas do que qualquer planilha de custo.
O papel do líder consciente
Reconhecer sinais é o primeiro passo. Quando o colaborador começa a perder brilho nos olhos, evita interações ou entrega no limite do “suficiente”, algo já está errado. E é aí que o gestor precisa atuar, não com discursos motivacionais, mas com escuta genuína.
Perguntar “está tudo bem?” pode ser clichê. Mas querer ouvir a resposta é o que diferencia um gestor comum de um líder humano.
Estar presente não é bater ponto. É sentir propósito. E quando a alma vai embora antes do corpo, é hora de repensar o modelo, não o colaborador.
João ToledoPsicanalista e mentor. Quem sou