Psicanálise · 10 min

O Luto da Liderança

Por Que a Razão Não Salva Ninguém da Servidão Voluntária

Escrevo este artigo no período eleitoral de 2026, e há um luto silencioso que só conhece quem dedicou anos ao desenvolvimento de pessoas. Não é o luto de um projeto que fracassou ou de uma meta não batida. É o choque de ver um antigo liderado, que sobrevive com poucos salários mínimos, ou um antigo “irmão” da comunidade eclesial defenderem publicamente a engrenagem que o esmaga. Diante dessa cena, o primeiro sintoma é a culpa, quase automática: onde eu falhei? Tendo tido a oportunidade e a influência, por que não fui capaz de ajudá-lo a despertar para a própria realidade e para a consciência da classe a que pertence?

Antes de seguir, uma ressalva de método. O que se lerá a partir daqui são hipóteses. Partem da minha experiência de gestão de pessoas e da leitura de autores da psicanálise e da filosofia, não de contato clínico com as pessoas descritas. Não tenho acesso ao inconsciente de ninguém, e este texto não pretende diagnosticar indivíduos ou grupos. Pretende propor uma leitura que pode ser confrontada com a observação e com outras explicações, sobretudo sociológicas e econômicas, que este artigo não esgota.

Essa impotência, porém, pode ser uma armadilha. Ela se sustenta na crença de que temos poder para salvar o outro pela lógica ou pelo afeto, crença que a psicanálise questiona. Ao ocupar posições de liderança, é fácil ser capturado pelo que Jacques Lacan chamou de sujeito suposto saber. Acreditamos que a alienação do outro é falta de informação e que, desenhado o cenário com clareza suficiente, ele abandonará suas ilusões e escolherá a emancipação.

Mas o desejo humano não se educa apenas pela razão. Uma hipótese possível é que a frustração do líder nasça do choque entre sua vontade de emancipar e a recusa do sujeito em ser “acordado”. Nesse caso, a alienação de um trabalhador precarizado que aplaude políticas de opressão não seria apenas um erro cognitivo, mas uma defesa psíquica. Assumir a consciência de classe exigiria reconhecer-se como o lado vulnerável da relação e suportar a dor disso. O que parece ignorância pode ser, então, uma tentativa de não enlouquecer diante da própria impotência.

Aceitar que ninguém pode ser forçado à emancipação fere o narcisismo do líder. Só depois dessa ferida podemos deixar de perguntar “por que eu falhei em ensiná-los?” e investigar a questão que importa: por que a mente humana prefere a ilusão de poder à verdade da própria submissão?

Costumamos ignorar um ponto de partida: a consciência de classe não é, de início, uma epifania libertadora. Pode ser um trauma. Para quem sobrevive com dois ou três salários mínimos, olhar a realidade de frente pode significar reconhecer-se como peça descartável de uma máquina que o tritura. É o encontro com a própria impotência. Suponho que, em muitos casos, o psiquismo não tolere esse desamparo por muito tempo sem colapsar. Nesse ponto, a alienação deixaria de ser apenas falha intelectual e passaria a funcionar como escudo.

Para se proteger, o ego pode recorrer à identificação com o agressor, conceito descrito por Sándor Ferenczi e sistematizado por Anna Freud. A lógica inconsciente que a teoria sugere é esta: se não posso vencer quem tem poder sobre mim, funde-me a ele. O sujeito internalizaria os valores, o discurso e a visão de mundo de quem o oprime. Assim deixaria de sentir a angústia da presa e passaria a usufruir, de forma emprestada, da força do predador.

Nesse quadro, apoiar o grande capital, defender a retirada de direitos trabalhistas ou aplaudir discursos autoritários talvez não sejam escolhas econômicas no sentido estrito. Podem funcionar como operações de alívio narcísico. Ao defender o sistema que o exclui, o sujeito pode sentir que pertence ao lado dos vencedores, trocando a dor da realidade material pela euforia da fantasia.

Nas redes sociais, essa dinâmica parece encontrar um ambiente favorável. A vitrine digital é o terreno do que a psicanálise chama de Ideal do Eu: a imagem de perfeição e poder com que o sujeito deseja se fundir, em contraste com seu eu falho e vulnerável. Se a hipótese estiver certa, a rede não serviria para registrar a exaustão do transporte público ou o limite do contracheque, e sim para performar a estética do empresário de sucesso e repetir o discurso da meritocracia e do “mindset milionário”.

Daí decorre uma consequência prática. Se a leitura estiver correta, apresentar dados sobre desigualdade ou gráficos de concentração de renda tende a produzir pouco efeito, porque a lógica não atinge defesas psíquicas. Quando se ataca o político ou o sistema que ele defende, o inconsciente pode não processar a crítica como debate político, mas como ameaça de aniquilação. Retirar a identificação com o agressor sem uma estrutura interna capaz de sustentar a realidade equivaleria a devolver o sujeito ao terror do desamparo. A previsão da hipótese é que a reação imediata seja hostilidade, não escuta, e que ele defenda sua cegueira com a mesma força com que defende a própria vida. Essa previsão pode ser testada, e é isso que a torna útil.

Para que a identificação com o agressor se sustente no cotidiano, ela precisa de um palco. Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, descreve a mudança histórica desse palco. Na sociedade disciplinar, a dominação operava pelo dever e pela punição externa. O sujeito sabia quem o oprimia: o senhor, o patrão, o Estado. Havia uma linha de separação entre as classes, e essa linha permitia a união dos oprimidos contra um opressor comum.

Segundo Han, o sistema atual substituiu o “você deve” pelo “você pode”. O trabalhador passa a se ver como “empresário de si mesmo” e deixa de se reconhecer como parte da classe trabalhadora. A opressão, nessa leitura, deixa de ser externa e passa a ser internalizada: cada indivíduo carregaria o feitor na própria cabeça. Ao transformar cada sujeito em uma miniempresa, o sistema teria dissolvido a consciência de classe e posto a concorrência no lugar da solidariedade.

Uma hipótese é que essa matriz ajude a explicar a posição de um antigo liderado que, ganhando no máximo três salários mínimos, defende o corte de políticas públicas. A ideologia do mérito pode tê-lo ensinado que pobreza e fracasso são defeitos de caráter, não falhas do sistema. Se ele não enriqueceu, a culpa seria dele, por não ter “trabalhado enquanto eles dormem”. Nessa matriz, apoiar programas sociais soa como premiar a preguiça alheia.

Formulada em uma frase, a hipótese seria esta: o sintoma visível é o ódio ao assistencialismo, e a causa talvez seja o medo do próprio fracasso.

Ao adotar o discurso da direita radical ou do grande capital, esse trabalhador defenderia a narrativa de que seu esforço solitário será recompensado. Reconhecer o valor do apoio social e da consciência de classe exigiria admitir que o jogo começou viciado e que o esforço individual não garante vitória. Para quem está nessa posição, pode ser mais confortável, ainda que exaustivo e autodestrutivo, acreditar que controla o próprio destino. Se essa leitura estiver correta, a hegemonia se sustenta quando o explorado defende a própria exploração, convencido de que exerce sua liberdade.

Quando a alienação econômica se apoia na fantasia do sucesso individual, a alienação moral pode se apresentar como virtude coletiva. Aqui está a maior perplexidade: observar amigos e líderes religiosos que pregam amor e graça para milhares e, na esfera pública, defendem com fervor políticas que oprimem os mais fracos. Como a mensagem do Sermão da Montanha se converte na defesa da espada?

Para pensar essa fratura, vale abandonar a hipótese de hipocrisia consciente. A suspeita é que o problema seja estrutural. Em Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921), Freud mostra que o laço que mantém um grupo coeso se apoia na identificação com um líder e na identificação dos membros entre si, e que essa coesão costuma se reforçar pela hostilidade a quem está de fora. Em alguns desses grupos, a figura divina poderia deixar de ser símbolo de acolhimento e ocupar o lugar de um superego punitivo.

No senso comum, o superego é tomado por uma bússola moral. Na clínica, ele costuma aparecer como instância cruel e tirânica. Se essa dinâmica estiver presente numa comunidade religiosa, o amor ao próximo passaria a depender da obediência. O afeto ficaria reservado a quem pertence ao grupo, e para quem está fora (o pobre, o dissidente, o vulnerável) restaria o rigor da lei. Nesse caso, apoiar políticas que retiram direitos ou oprimem minorias pode funcionar como uma forma de “fazer a vontade de Deus”, e a crueldade ganharia o álibi da retidão moral.

Em A Genealogia da Moral, Nietzsche descreve o ressentimento como a moral de quem, incapaz de agir sobre aquilo que o subjuga, transforma a impotência em julgamento sobre os outros. Aplicado a esse caso, o conceito sugere que a agressividade reprimida em nome de dogmas rígidos encontraria alvo nos “desviantes” e nos vulneráveis. É uma leitura possível, não a única.

Nessa leitura, defender que o Estado puna os mais pobres não seria contradição. Funcionaria como válvula: a chance de exercer a agressividade de forma socialmente aceitável, disfarçada de defesa da família ou manutenção da ordem. A decepção de quem escuta esses discursos talvez nasça de um desencontro de códigos. Você espera a ética do acolhimento cristão original. Eles podem estar operando em outra lógica, na qual excluir o outro comprova o pertencimento e a pureza.

Diante desse choque, a saída mais rápida é evacuar a dor. Ela pode virar ressentimento moral (“eles são ignorantes e maus”) ou autoflagelação narcísica (“eu falhei como líder”). Nessa leitura, ambas são atalhos para não pensar, formas de rejeitar a realidade como ela se apresenta.

É aqui que Wilfred Bion se torna o eixo de transformação para a prática do líder e do analista. Em Aprendendo com a Experiência, Bion sustenta que o pensamento não nasce da certeza, mas da capacidade de tolerar a frustração.

No encontro com o limite do outro, recebemos o que Bion chama de elementos beta: dados brutos, indigeríveis, impactos emocionais que nos atropelam. Se o ego não suporta essa frustração, expele o impacto pela raiva ou pela negação. Se o líder ou o analista tolera a dor da impotência, aciona a função alfa, a capacidade de metabolizar o bruto e transformar o choque em conceito, o luto em compreensão e a frustração em decisão.

O que fazer, então, com essa constatação?

Abandonar a fantasia do resgate. O primeiro passo é encerrar a tutela. O outro tem o direito, inclusive inconsciente, de escolher a própria servidão voluntária. A função do líder não é salvar o liderado de suas defesas, e sim garantir que o ambiente de trabalho ou de análise seja um campo de clareza enquanto ele estiver sob sua responsabilidade.

Mudar de posição: de doutrinador a continente. Na relação continente/contido, de Bion, a mente precisa ser o espaço capaz de sustentar a complexidade do mundo sem colapsar em maniqueísmos. Deixa-se de tentar convencer pela lógica e passa-se a oferecer o que a ideologia do outro proíbe: a dúvida, a pergunta incômoda e espaço para a ambivalência.

Redirecionar a energia. A frustração metabolizada vira combustível de trabalho. Em vez de gastar energia tentando despertar quem precisa da ilusão para se manter de pé, dedique-se a construir estruturas (no trabalho ou na vida eclesial) que sirvam de abrigo para quem já está pronto para arcar com o custo da própria emancipação.

A psicanálise não promete um mundo em que todos se tornem conscientes ou éticos. Oferece algo mais modesto: a capacidade de não enlouquecer diante da cegueira alheia e a lucidez de continuar sustentando a verdade, mesmo quando o rebanho prefere o conforto do abatedouro.

João ToledoPsicanalista e mentor. Quem sou

Esse tema é o seu?

Escreva pelo WhatsApp e diga o que o texto despertou. A conversa começa por aí.

Falar no WhatsApp

Atendimento online. A resposta vem pelo próprio WhatsApp.

Falar no WhatsApp