O dilema das máscaras necessárias
Vivemos tempos curiosos: falamos cada vez mais sobre autenticidade, mas aplaudimos versões cuidadosamente editadas de nós mesmos. É o paradoxo das redes, onde se busca ser “genuíno”, mas dentro dos filtros que cabem no feed. Na vida corporativa, a cena é parecida: o profissional deve ser “transparente”, mas apenas até o ponto em que não afete o clima organizacional.
A verdade é que todos usamos máscaras. O problema não é tê-las, é esquecer-se de que são máscaras.
O filósofo Nietzsche dizia que “temos a arte para não morrer da verdade”. Talvez por isso o “eu profissional” e o “eu pessoal” tenham aprendido a negociar espaço. A persona é o disfarce necessário para sobreviver em ambientes que ainda não acolhem a vulnerabilidade.
O perigo de caber demais
A adaptação é uma habilidade valiosa. Mas quando ela se torna permanente, transforma-se em submissão. Muitos profissionais vivem esgotados não por excesso de trabalho, mas por excesso de personagens.
Um estudo da Deloitte e da NYU (Uncovering Culture, 2024) mostrou que cerca de 60% dos trabalhadores nos Estados Unidos disfarçam aspectos de quem são no trabalho para se encaixar, e que 74% deles dizem ter sido prejudicados de alguma forma por isso. A máscara cobra um preço.
A autenticidade não é rebeldia, é coerência
Ser autêntico não é ser “do contra”, nem falar tudo o que se pensa. É alinhar o discurso com o sentir, e o agir com o propósito. É quando a sua essência passa a ter voz, e não só crachá.
Na mentoria, costumo dizer que a autenticidade é o antídoto da fadiga emocional. Quando você vive o que acredita, o desgaste diminui porque a energia não se perde sustentando versões de si.
O retorno do verdadeiro “eu”
Autenticidade exige coragem, e humor. Porque admitir incoerências é inevitável (e humano). O convite é simples: ser quem você é, mas em versão consciente. Sem personagem fixo, mas com propósito definido.
No fim, o “eu autêntico” não é quem você descobre. É quem sobra quando você para de fingir.
João ToledoPsicanalista e mentor. Quem sou